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1949/1984/2012 ou a vida tentando imitar a arte

14 de junho de 2012 | Filed under: anotações, caduquice and tagged with: 1984

Assisti a um pedaço de um documentário sobre a 2a Guerra Mundial, ainda esses dias, pela TV Escola. Interessante mesmo. De acordo com o tal documentário, o Japão avisou os Estados Unidos que os dois países entrariam em pouquíssimo tempo antes do ataque a Pearl Harbour; há controvérsias uma vez que encontrei informes de que o Japão ainda não declarara guerra aos Estados Unidos no momento do ataque (na wikipedia também).

Essa parte do noticiário me fez pensar em propaganda: é comum que o revolucionário de plantão ache uma coisa absurda o lançamento das bombas sobre Hiroshima e Nagasaki (e de fato é, ou, no mínimo, deveria ser) e ignore completamente um ataque sem ao menos uma declaração oficial de guerra.

Absurdo

Explosão atômica

Sim, o que foi dito acima parece e é um absurdo. Esta entrada, entretanto, não tem a finalidade de defender a guerra. Deixando essa possibilidade de lado, voltemos aos apontamentos que deram origem ao pousté.

O que importa para esta, são a memória (ou o esquecimento) e a língua. A começar pela memória, falar sobre a entrada dos Estados Unidos na 2a grande guerra foi provocação para falar em ideologias. E a criação e manutenção dos idiomas responde e fundamenta ideologias, construções históricas, etc. Sobre isso, pode ser citado The Age of Capital, de Eric Hobsbawn (p. 87-89, Vintage Books):

For the argument was directed as much against the regional languages and cultures of the nation itself as against outsiders, and did not necessarily envisage their disappearance, but only the down-grading from the status of ‘language’ to that of ‘dialect’. Cavour did not deny the right of Savoyards to talk their language (closer to French than Italian) in a United Italy: he spoke it himself for most domestic purposes. He, and other Italian nationalists, merely insisted that there should be only one oficial language and medium of instruction, namely Italian, and the others should sink or swim as best they could. As it so happened at this stage, neither the Sicilians nor the Sardinians insisted on their separate nationhood, so their problem should be redefined as, at best, ‘regionalism’. (…)

…

No wonder Massimo d’Azeglio (1792-1866) exclaimed in 1860: ‘We have made Italy; now we must make the Italians.’

 Ainda os Estados Unidos, ligando os pontos

Outro exemplo envolvendo os Estados Unidos pode ser citado, dessa vez fazendo referência à sua relação com a França, que foi facilmente tomada e controlada na 2a Guerra Mundial; desnecessário dizer que a entrada dos norte-americanos nesta guerra foi fundamental para a saída dos alemães do território francês. Pois bem, de uma guerra para outra, França e Estados Unidos se estranharam nos meses que se seguiram aos atentados de 11 de setembro. Assinante do periódico online Wordsmith, recebi o seguinte e-mail em 2003 (tradução minha):

Após essa semana com palavras relacionadas ao direito, onde muitas das palavras são de origem francesa, recebi o seguinte e-mail de um leitor:

“Eu proponho que vocês não apresentem palavras que tenham origem ou foram modificadas pela língua francesa. Não vejo mais isso como um e-mail positivo.”

Nestes períodos de ânimos acirrados, é compreensível levantarem esse tipo de assunto: por que os doutrinadores dos Estados Unidos não mudam o nome das batatas fritas (French fries) e rabanada (French toast) nos menus das lanchonetes? Ou por que um grupo de professores alemães acha que precisa excluir termos de origem inglesa de seus vocabulários?

Esta não é a primeira vez que se tenta um revisionismo linguístico. Durante a 1a Guerra Mundial, por exemplo, tentou-se mudar nos Estados Unidos, o nome do chucrute (sauerkraut) para “repolho da liberdade”. Mas estamos tão interconectados, como nossas línguas, que qualquer tentativa neste sentido acaba dando com os burros n’água.

“Batatas da liberdade,” (freedom fries) dizem eles? Bom, ainda tem algum francês remanescente, uma vez que a palavra fry (?) vem do francês antigo frire. “Torradas da liberdades” (freedom toast)? E que tal toast que vem do francês medieval tostes? Pensando nestas linhas, teríamos até mesmo que trocar o nome dos Estados Unidos (do francês antigo estat). As estimativas variam, mas um quarto ou mais das palavras em língua inglesa foram influenciadas pela língua francesa. Nas duas linhas que o leitor acima mencionado nos enviou, ao menos seis palavras têm conexões com o francês (propose, feature, base, language, positive, mail).

Um idioma não é propriedade de um país. O francês pertence tanto à França quanto ao Senegal ou Canadá ou qualquer outro que o fale.

Há uma tentativa clara de manipular os ânimos da população através de uma pequena modificação no que falamos; essa pequena mudança certamente transforma nosso dia-a-dia e, graças à ignorância, pode levar a redirecionamentos permanentes ou, o que pode ser ainda pior, constantes: cortinas e mais cortinas de fumaça.

Novilíngua

Essa cadeia toda de referencias traz, por fim, outra referência: a Novilíngua, que aparece no livro 1984, de George Orwell. Estou lendo o texto eletrônico preparado pela editora Penguin, mas encontrei os trechos que interessam a este pousté em português em um pdf:

Tenho a impressão de que imaginas que o nosso trabalho consiste principalmente em inventar palavras. Nada disso! Estamos é destruindo palavras, às dezenas, às centenas, todos os dias. Estamos reduzindo a língua à expressão mais simples. A Décima Primeira Edição não conterá uma única palavra que possa se tornar obsoleta antes de 2050. [...] É lindo destruir palavras. Naturalmente, o maior desperdício é nos verbos e adjetivos, mas há centenas de substantivos que podem perfeitamente ser eliminados. Não apenas os sinônimos; os antônimos também. Afinal de contas, que justificativa existe para a existência de uma palavra que é apenas o contrário da outra? Cada palavra contém em si o contrário. [...] Não percebes a beleza que é destruir palavras. Sabes que a Novilíngua é o único idioma do mundo cujo vocabulário se reduz de ano para ano? [...] Não vês que todo o objetivo da Novilíngua é estreitar a gama do pensamento? No fim, tornaremos a crimideia literalmente impossível, porque não haverá palavras para expressá-la. Todos os conceitos necessários serão expressos exatamente por uma palavra, de sentido rigidamente definido, e cada significado subsidiário eliminado, esquecido. Já na Décima Primeira Edição, não estaremos longe disso. Mas o processo continuará muito tempo depois de estarmos mortos. Cada ano, menos e menos palavras, e a gama de consciência sempre uma pausa menor. [...] Até a literatura do Partido mudará. Mudarão as palavras de ordem. Como será possível dizer “liberdade é escravidão”, se for abolido o conceito de liberdade? Todo mecanismo do pensamento será diferente. Com efeito, não haverá pensamento, como hoje o entendemos. Ortodoxia quer dizer não pensar… não precisar pensar. Ortodoxia é inconsciência.

É, a Idiocracia vem aí.

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